História da produção de vinhos finos de mesa no Estado de São Paulo remonta aos primórdios da colonização brasileira
São Paulo produz bens vinhos, isso é inexorável. Entretanto, de uns tempos para cá, passou a buscar a excelência na produção de vinhos, investindo em videiras de qualidade, preparo de terra, colheita, técnicas de vinificação e, sobretudo, passou a respeitar o terroir de cada região.
A história da produção de vinhos finos de mesa no Estado de São Paulo remonta aos primórdios da colonização brasileira. Ainda no século XVI, mudas de videira trazidas pelos portugueses foram plantadas na antiga Capitania de São Vicente, dando início a experiências vitícolas que, embora incipientes, já indicavam a vocação agrícola da região. Ao longo dos séculos seguintes, a cultura da uva se espalhou pelo interior paulista, mas foi especialmente no século XX que a produção de vinhos de mesa ganhou escala comercial, impulsionada por famílias de imigrantes italianos que trouxeram consigo técnicas, tradição e o hábito do consumo cotidiano do vinho. Esses primeiros rótulos, em geral, elaborados com uvas americanas como Isabel e Bordô, abasteciam mercados locais e consolidaram um polo produtivo que moldaria a identidade vitivinícola paulista.
A partir das últimas duas décadas, porém, o cenário mudou de forma significativa. Com a introdução da técnica da dupla poda — que permite a colheita no inverno, período mais seco e favorável à maturação das uvas — São Paulo passou a investir de maneira consistente na produção de vinhos finos, elaborados com variedades europeias como Cabernet Franc, Syrah, Sauvignon Blanc e Tempranillo. Essa virada técnica e qualitativa colocou o estado no radar de críticos e concursos especializados, mostrando que o terroir paulista, antes associado apenas ao vinho de mesa tradicional, poderia alcançar novos patamares de excelência.
Na cidade de São Roque, um dos mais tradicionais polos vitivinícolas do estado, a produção de vinhos se tornou parte da própria identidade cultural e turística. Conhecida como a “Terra do Vinho”, a cidade consolidou-se ao longo do século XX com dezenas de pequenas e médias vinícolas, formando um roteiro que hoje atrai milhares de visitantes todos os anos. Entre os nomes mais emblemáticos está a Vinícola Góes, cuja história remonta às primeiras décadas do século passado. A empresa tornou-se símbolo de pioneirismo ao atravessar diferentes fases do mercado — dos vinhos de mesa tradicionais à moderna produção de vinhos finos de inverno — investindo em tecnologia, diversificação de portfólio e enoturismo. Ao combinar tradição familiar e inovação enológica, a Góes ajudou a reposicionar São Roque no cenário nacional.
Na região de Avaré, às margens da represa de Jurumirim e nos arredores da cidade de Itaí, a vitivinicultura também encontrou condições favoráveis para se desenvolver. Ali se destaca a Casa Soncini, vinícola boutique que apostou desde o início na dupla poda e em pequenas produções voltadas à qualidade. Com foco em castas viníferas europeias e em uma proposta que une terroir, arquitetura e experiência sensorial, a Casa Soncini representa a nova geração de produtores paulistas: enxutos, técnicos e atentos às tendências do mercado premium.
Na Serra da Mantiqueira Paulista, especialmente em Campos do Jordão e municípios vizinhos, a altitude e o clima mais amenos criaram condições ideais para o cultivo de uvas viníferas. Nesse contexto, a Vinícola Villa Santa Maria ganhou notoriedade ao investir em vinhos finos de alta qualidade, integrando produção, gastronomia e turismo em um projeto sofisticado. Seus rótulos, frequentemente premiados, reforçam a percepção de que os vinhos de altitude paulistas possuem frescor, estrutura e capacidade de envelhecimento, competindo com outras regiões brasileiras já consolidadas.
Mais ao norte do estado, entre São José do Rio Pardo e Itobi, a vitivinicultura ganhou impulso com projetos que unem paixão e planejamento técnico. A Casa Verrone é um exemplo desse movimento. Com vinhedos implantados a partir de 2009, a propriedade investiu em variedades europeias e na produção diversificada de tintos, brancos, rosés e espumantes, associando qualidade enológica a uma proposta de enoturismo que fortalece o vínculo entre consumidor e produtor.
Na região de Ribeirão Preto, tradicionalmente associada à cana-de-açúcar, o cultivo de uvas finas também vem ganhando espaço. A Vinícola Terras Altas ilustra essa expansão, explorando a técnica da colheita de inverno em áreas de grande amplitude térmica. O resultado são vinhos estruturados, de perfil moderno, que demonstram como diferentes microclimas paulistas podem ser adaptados à viticultura de qualidade.
O panorama atual revela um estado em transformação. Se no passado São Paulo era lembrado sobretudo por seus vinhos de mesa tradicionais e sem qualquer expressão de qualidade, hoje desponta como um dos polos mais dinâmicos da vitivinicultura brasileira. A combinação entre técnica, investimento, diversidade de terroirs e fortalecimento do enoturismo projeta um futuro promissor. A qualidade dos rótulos paulistas cresce a cada safra, e as perspectivas de mercado indicam expansão tanto no consumo interno quanto na consolidação de uma identidade própria. Mais do que um capítulo regional, o vinho paulista passa a ocupar espaço relevante na narrativa contemporânea do vinho brasileiro. Salut!
JP NEWS





